Idade certa para ser mãe: isso existe?

Minhas amigas, hoje vou voltar a tocar em um ponto delicado: a idade certa para ser mãe. As pressões sobre vocês são enormes: vencer profissionalmente e ainda achar tempo para serem esposas e mulheres. Enfrentam duplas e triplas jornadas dentro e fora de casa. Não é fácil! Eu realmente as admiro por tanta força. No entanto, como médico especialista em reprodução humana, preocupa-me o adiamento da maternidade decorrente dos novos papéis sociais assumidos por vocês.

A nossa sociedade moderna não levou em consideração que a função reprodutiva feminina é finita – e como conversamos no último post desse blog, não há como parar o tempo. Existe um momento propício, do ponto de vista biológico, para a maternidade. Repito: a melhor idade para se ter o primeiro filho é até os 30 anos. A mulher nasce com um estoque limitado de óvulos. Com o passar do tempo, essa reserva vai diminuindo e a qualidade dos óvulos também vai piorando (leia mais aqui).

Hoje, o tempo biológico não está coincidido com o momento social em que as mulheres começam a pensar concretamente na maternidade. Antes vem a graduação, o mestrado, o doutorado, a estabilidade profissional… Casam mais tarde, postergam mais dois ou três anos o primeiro filho para aproveitarem o casamento. Na maioria das vezes, quando o desejo de ser mãe é priorizado, vocês encontram dificuldades para engravidar – e sofrem muito por isso!

O tratamento de pacientes com idade mais avançada representa um dos maiores desafios da medicina reprodutiva. Os avanços das técnicas levaram ao aumento significativo no sucesso gestacional em pacientes com idade inferior a 35 anos. No entanto, esse crescimento não ocorreu nas taxas de gestação nas pacientes com mais 35 anos. Nesses casos, há uma dificuldade na resposta ovariana da paciente e um menor número óvulos com qualidade para os tratamentos. Como conseqüência, temos uma eficácia reduzida na implantação dos embriões, baixas taxas de gestação e altas taxas de aborto espontâneo. Também há maior incidência de problemas genéticos nos gametas dessas pacientes.

Existem exames para analisar a reserva ovariana feminina, pois em algumas pacientes há uma perda ainda maior de óvulos por mês, o que leva à menopausa precoce (veja mais aqui). Os dois principais métodos são o ultrassom, realizado durante a mestruação, onde analisamos a quantidade de folículos maduros no ciclo, e as dosagens hormonais, através das quais analisamos o funcionamento do ovário.

Desde que vocês nascem, vão perdendo óvulos. Para terem uma idéia, quando vocês estão no útero da mãe de vocês chegam a ter entre 6 e 7 milhões de óvulos. Ao nascerem esse número cai para 2 milhões e na primeira menstruação chega a 300.000 óvulos apenas.

Recomendo que vocês planejem o primeiro filho até os 30 anos, pois é a partir dessa idade que a perda de óvulos se acelera. O sistema reprodutivo de vocês ainda não foi testado completamente. Se houver algum problema que impeça o surgimento da gestação ou o seu desenvolvimento sem complicações até o parto, teremos tempo para investigar e buscar o melhor tratamento. Aos 35 anos, o número de óvulos cai drasticamente, aos 37 está em queda livre. O adiamento da maternidade leva a um aumento no número de mulheres inférteis ou subférteis.

A idade da paciente sempre será um dos principais fatores prognósticos em qualquer tratamento de reprodução humana. É possível resolver as dificuldades na imensa maioria dos casos. No entanto, não temos como parar o processo inexorável que levará vocês à menopausa. A velocidade em que isso ocorre depende muito do organismo de cada mulher.

Vocês procuram meu consultório com muitas conquistas, mas a dor que vejo em vocês pela ausência de um filho me leva a alertá-las: não ponham em risco o sonho da maternidade deixando o tempo passar em demasia. A minha vida foi muito mais feliz quando consegui realizar o sonho de ser pai – e se soubesse, teria sido pai antes. Desejo que vocês consigam ser mães também. A medicina reprodutiva está aqui para fazer a parte dela, mas vocês podem planejar a maternidade, evitando as complicações advindas com a idade.

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